Coluna do Escrete: "Let them play"! A arbitragem não deve ser superior ao jogo

Após erros crassos por falta de ação do VAR, CBF envia nova recomendação pedindo menos intervenção do árbitro de vídeo; seria essa a solução?

Publicado em 13/04/2025 às 0:00
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A arbitragem vem sendo, mais uma vez, um tema de destaque neste início de Campeonato Brasileiro.

Para além, claro, dos equívocos que já marcaram os campeonatos estaduais e regionais, além da Copa do Brasil, no primeiro trimestre, as duas primeiras rodadas da Série A do Brasileirão foram marcadas por mais erros crassos.

Erros que culminaram no afastamento de duas equipes de arbitragem, as que atuaram em Sport 1 x 2 PalmeirasInternacional 3 x 0 Cruzeiro.

O afastamento, claro, faz parte do processo, afinal, erros precisam ser corrigidos e, para tal, é preciso tempo e um cenário propício para tal, com menor pressão.

É a famosa "reciclagem". Mas que "reciclagem" é essa?

Os erros de ambas as partidas foram cometidos pelos árbitros de campo e referendados pelo VAR, que, em tese, deveriam apontar tais erros.

No entanto, o que temos visto é um VAR cada vez menos intervencionista em 2025 e isso pode ser notado não apenas nos lances dos dois jogos já citados, como também no pênalti marcado sobre Vitor Roque no jogo Palmeiras 1 x 0 São Paulo pela semifinal do Paulistão.

Para confirmar o que era uma impressão, a Comissão de Arbitragem enviou uma nova recomendação aos árbitros, que, segundo reportagem da Uol Esportes, será passada a partir dos treinamentos que acontecerão no Rio de Janeiro nesta semana e que visa "um árbitro de vídeo menos 'interventor' e mais assistente".

A recomendação é o exato oposto do que teria sido necessário para corrigir os erros citados acima. Uma resposta ao caráter extremamente intervencionista visto na arbitragem brasileiro ao longo dos anos? Talvez...

A resposta para isso é um VAR mais "intervencionista", então? 

Não!

A resposta, embora complexa, é um conceito muito aplicado na Fórmula 1: "Let them race" ("Deixe-os correr", em português).

No futebol, o conceito seria adaptado para "Let them play" ('Deixe-os jogarem"), algo que já, implicitamente, aplicado no futebol europeu.

Isso pode soar como justamente o que a CBF busca, ser "menos intervencionista". Mas não, os conceitos não são a mesma coisa.

Uma coisa é "Deixar jogar", outra coisa "Joguem de acordo com as recomendações".

O conceito de "Let them race" da Fórmula 1 é evitar que a corrida seja moldada mais pelos comissários e pela FIA do que pelos próprios pilotos, não que os comissários intervenham mais ou menos, mas sim o necessário.

Se os pilotos agirem dentro das regras, não haverão punições, se agirem fora delas, serão punidos.

No futebol deveria ser assim. A arbitragem não deve educar os jogadores, a arbitragem não deve ditar como os jogadores atuarão dentro de campo, e nem o VAR deve ditar o que a arbitragem de campo irá fazer ou não, consequentemente.

A arbitragem não deve entrar em campo com pensamentos do tipo: "Não posso dar muitos/poucos cartões, não posso/devo marcar muitas faltas, devo interferir mais/menos nos lances".

O que deve ditar como será a partida é a partida em si, são os jogadores. Se uma partida pedir muitos cartões, o árbitro deverá aplicá-los, se não pedir, não aplicará. Se o árbitro de campo cometer um erro crasso, o VAR deverá intervir, caso contrário... não.

O que acontece no futebol brasileiro são partidas que buscam ser controladas pela arbitragem, que ora conversa demais, ora aplica cartões demais, não de acordo como a partida se desenrola, mas como um "padrão".

Isso artificializa o jogo, pilha os jogadores e torna a partida um esboço do que seria se seguisse o seu curso natural. Cabe ao árbitro aplicar a regra, não ensiná-las aos jogadores.

Cabe à Comissão de Arbitragem tornar o árbitro apto a aplicar a regra, não inferir uma visão nova a cada semana.


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